• Quinta-feira, 29 de Outubro de 2020
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O recado da América Latina: Uma análise dos protestos no Chile

A América Latina já deu amostras históricas de como pode flertar com o progresso e o retrocesso em pouquíssimo espaço de tempo. Exemplos não faltam para ilustrar períodos latinos de ditadura e repressão sendo superados por regimes democráticos e progressistas, onde todas as conquistas se confirmaram com muita luta do povo na rua brigando por seus direitos, sendo possível constatar que essa é a tradição do povo latino.

Porém, o presente momento da América Latina nos oferece uma peculiaridade a ser observada. O Chile, que possui uma democracia já consolidada, vive dias de normalidade institucional, possui números apontando que não há crise de abastecimento, não há crise econômica, sendo usado inclusive como modelo econômico por outros países e mais recentemente serviu de inspiração aos governantes brasileiros como um “case” de sucesso, assiste a maior manifestação desde sua redemocratização, levando mais de 1,2 milhões de pessoas as ruas, em um país com cerca de 18 milhões de habitantes. Até agora, pelo menos 19 pessoas foram mortas nos protestos e mais de mil ficaram feridas.

Mas se não é a luta por direitos democráticos de liberdade, se o Chile não passa por crise econômica e é usado como exemplo de sucesso a ser seguido pelos brasileiros, o que fez com que os chilenos se levantassem e travassem tamanha luta contra seus governantes? Se ficarmos apenas nos números e nas salas acadêmicas de estudo fazendo análises superficiais da situação chilena, realmente vamos continuar sem entender nada, porém, basta um olhar para uma periferia no Chile ou uma conversa com um cidadão chileno de classe média para obter a resposta.

O Chile desde sua redemocratização fez uma opção por deixar de lado a participação do governo em questões centrais como eletricidade, água, educação e saúde, por exemplo, e permitiu que a demanda por tais serviços fossem sanados pela iniciativa privada, isso de fato diminuiu, e muito, os gastos do governo e permitiu que se mantivesse uma sanidade fiscal exemplar, o que transparecia para o mundo como o resultado de algo que deu certo.

O que não foi observado é que o Chile continuou sendo um país extremamente desigual, com uma distribuição de renda pífia e ofuscada pelos bons números que a economia apresentava. Um relatório elaborado pela Comissão Econômica da América Latina e o Caribe (CEPAL) mostra que 1% dos mais ricos do Chile mantém 26,5% de toda a riqueza do país, enquanto 50% dos mais pobres detêm 2,1% da mesma riqueza.

Como falado anteriormente, o Chile optou por uma política não intervencionista do Estado na economia, portanto um chileno pobre que possuir um problema de saúde deve procurar a rede privada para ser atendido, bem como deve procurar a mesma rede privada para ter acesso ao remédio. O sistema de aposentadoria chileno também foi oferecido a um fundo privado, onde apenas o empregado contribui, sem participação dos empregadores, o que resulta em uma aposentadoria em média menor do que um salário mínimo para os mais humildes.

A baixa renda da maioria do povo, acumulada a um padrão de vida altíssimo imposto pelas redes privadas escancarou uma realidade em que um aposentado não consegue dar conta de comprar seus próprios remédios para sobrevivência, e ao olhar para o estado em busca de um suspiro, não encontrou absolutamente nada.

Isso nos impõe uma reflexão de que não apenas a boa saúde fiscal de um país ou a forma que sua elite o vende como um modelo de sucesso econômico são suficientes para acreditarmos que aquele é o exemplo a ser seguido. É preciso olhar para quem realmente constrói e carrega uma nação, o seu povo. Se ele vai mal, não existem números que evitem um levante popular e tragam uma instabilidade política e institucional a um país, afinal, o povo não se alimenta nem sobrevive de algoritmos.

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