Quando você pensa nos maiores diretores do cinema é bem provável que a maioria (senão todos ~ provavelmente todos) sejam masculinos. Eu mesma passo por isso quase sempre que me fazem esse questionamento. É bem verdade e bem nítido que o cinema, desde seu início, foi dominado pelo homem, especialmente quando falamos das principais funções por trás das câmeras. Para meio de comparação, foram necessárias 82 edições do Oscar para uma mulher levar o prêmio de melhor direção, Kathryn Bigelow ganhou por Guerra ao Terror (2009) e ainda é a única mulher a receber o prêmio. Antes disso apenas outras 3 mulheres receberam indicações. Desde o início do cinema as funções que foram de certa forma destinadas às mulheres não incluía duas das mais importantes: direção e direção de fotografia, àquela época dominada inteiramente por homens. Isso não significa que as mulheres não tinham grandes aspirações de um dia assumirem essas funções, muito pelo contrário, foram muitas as que batalharam por seu espaço em funções que a indústria se negava a permitir que comandassem, e foi justamente por causa da incansável luta de muitas dessas mulheres que se viram impossibilitadas de assumir as funções que desejavam, que 82 anos depois da fundação da Academia de Artes a primeira mulher voltou para a casa com um dos mais importantes prêmios da noite. É também bem verdade que essa história ainda não atingiu o seu “final feliz”, afinal a indústria ainda está longe de possuir um ambiente livre de preconceitos de gênero, onde homens e mulheres recebem o mesmo pela mesma função e tenham as mesmas oportunidades (entre outras coisas né).
Foi pensando em tudo isso, no tanto de história incrível de mulheres que tiveram importância gigantesca para o cenário atual do cinema no mundo e no quanto elas raramente são lembradas, que eu decidi criar uma nova série por aqui. Me peguei fascinada por mulheres importantes do cinema que eu pouco conhecia ou que nem havia ouvido falar, e percebi que precisava entender mais sobre elas, conhecer suas histórias e trajetórias e deixar isso tudo registrado por aqui. Para começar, escolhi a mulher que moldou Hollywood em seus primórdios, Mary Pickford (1892 – 1979).

Mary foi uma das primeiras queridinhas de Hollywood. Desde o início de sua carreira no cinema a atriz fez questão de exigir melhores salários conforme sua popularidade foi crescendo e não aceitava um não facilmente. Pickford manteve por anos a imagem de menina inocente que a américa tanto adorava e idolatrava, com seus longos cabelos encaracolados e aceitando papeis de meninas doces e heroínas que superavam qualquer tipo de dor e tragédia, era a combinação perfeita de delicadeza e força. Em 4 anos de carreira, Mary já era considerada a mulher mais famosa do mundo e a primeira celebridade feminina a ter tanto reconhecimento, ela foi a responsável por definir o conceito de estrela de cinema. A devoção da América era tanta que soldados iam para as guerras com fotos suas em medalhões, eles veneravam a ideia que tinham dela, de que era a perfeita menina que protagonizava em seus filmes. Quando Mary chegou em Los Angeles em 1910, um mês antes de Hollywood ter ganhado seu nome oficial, muitos ainda viam a mudança de carreira de atores do teatro para o cinema (como era o caso de Mary) como alarmante e inconsequente, afinal o cinema era algo novo e incerto, e mesmo contra todos os conselhos que ouviu a dizendo para não largar o teatro, Pickford mudou o rumo de sua carreira e com isso o da própria indústria recém criada. Sendo um dos primeiros rostos de Hollywood era completamente esperado que o sucesso que vem com isso e a pressão para que seja uma pessoa que possa ser apreciada e desejada por todo um país, não seria surpresa que da mesma forma que ela ajudou a criar esse império, ele a destruísse. Mas Pickford acabou se tornando uma heroína ao ajudar a salvar Hollywood não apenas com sua fama avassaladora, mas com as exigências que acabou criando como atriz, como tipos de iluminação que melhor a faziam parecer uma menina e a forma de atuação trazida do teatro, referências até hoje.

![]() |
![]() |
Mesmo sem ter tido educação escolar, Mary foi conhecida pelas excelentes decisões de carreira que tomou em sua vida e foi uma das fundadoras da United Artists, a primeira maior companhia independente na distribuição de filmes que consagrou diversos diretores do cinema mudo. Ao seu lado na fundação estavam grandes nomes como Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks e o polêmico, porém renomado D. W. Griffith. Assim como também foi uma das cofundadoras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, mais conhecida como Oscar. A fundação da United Artists em 1919 foi uma de suas excelentes táticas, à época Mary estava frustrada e enfurecida com o fato de que o recém famoso Chaplin já estava ganhando duas vezes mais que ela, então ao invés de tentar reverter a situação (que convenhamos, não teria como ser revertida e ela sabia disso) resolveu unir forças e acabou ensinando Hollywood que era muito mais que apenas uma de suas estrelas e que acima de tudo não era uma de suas vítimas. A UA acabou produzindo trabalhos bem conhecidos como Pollyana (1920), A Marca do Zorro (1920), Scarface (1932) Tempos Modernos (1936) e muitos mais outros até os dias atuais. A intenção da produtora era dar maior controle aos artistas por seus salários e melhores oportunidades de trabalho para que eles não dependessem apenas dos grandes estúdios.
Até o fim de sua carreira, que veio não muito depois da transição dos filmes mudos para os falados, ela recebeu dois Oscars por atuação e deixou de ser a queridinha da América ao abandonar seus longos cabelos encaracolados e encarar papeis mais maduros, o choque foi grande e motivo de discussão nas ruas e em revistas ao redor do país. De atriz do teatro, para atriz de cinema, para produtora. Nem Mary devia imaginar o tamanho de sua relevância para o cinema mais de 100 anos após seu início.


