Já fazem alguns anos que o cinema internacional vem ganhando um espaço maior entre os grandes filmes de Hollywood, o que já, convenhamos, não era sem tempo. O que surpreende aqui é o espaço que a própria Hollywood está dando à esses filmes. Por mais que um filme estrangeiro nunca tenha levado o maior prêmio do cinema para casa, esse é o segundo ano seguido que o Oscar indica um filme nas categorias de Melhor Filme Internacional (Novo nome da categoria de Filme Estrangeiro) e Melhor Filme ao mesmo tempo. Ano passado Roma foi a escolhida, e esse ano é o Sul-Coreano Parasita que tenta ser o primeiro filme internacional a levar o grande prêmio para casa. Confesso, por mais que minha torcida esteja com Adoráveis Mulheres, se Parasita fosse o grande vencedor eu ficaria bem feliz.
o Filme foi escrito e dirigido pelo experiente Bong Joon-Ho de Expresso do Amanhã e Okja, já conhecido por sua excelente direção e seus roteiros bem elaborados. Em Parasita, porém, ele prova estar um nível acima do que todos já o colocavam. A trama do longa gira em torno das famílias Kim e Park e existe uma gigante diferença entre elas, Os Kims são miseravelmente pobres, todos são desempregados e sobrevivem de pequenos golpes, - a cena de abertura do longa é maravilhosa, mostrando Ki-woo frustrado depois da vizinha de cima ter colocado uma senha no Wifi, ele e a irmã Ki-jeong então vasculham pela casa por um novo sinal livre. A família Park por outro lado, é muito rica. Quando um amigo de Ki-woo que trabalhava como tutor da filha do casal Park parte para uma viagem, ele indica o amigo para substituí-lo. É a partir disso que Ki-woo vê a oportunidade de conseguir um emprego para todos os membros de sua família dentro da residência Park, custe o que custar.

A forma com que cada personagem é desenvolvido é fascinante. Todos recebem o devido aprofundamento, mas a atenção vem em especial para a família Kim, que é composta por pessoas complexas e inteligentes, que conseguem se adaptar bem à qualquer tipo de situação que se encontram. O modo com que cada personagem se comporta dentro da própria casa e dentro da mansão Park é prova da capacidade de cada um deles e do aprofundamento dentro de suas personalidades. Um dos pontos que chama muita atenção à qualquer pessoa que assista ao filme é a quantidade de gêneros dentro dele. Por mais que se apresente de uma forma mais cômica a princípio, ao longo da trama passamos por gêneros de suspense, mistério e até terror. A maneira com que cada gênero foi abordado é genial, Bong Joon-Ho entende perfeitamente cada um deles e usa o que eles têm de melhor à seu total favor, é como se o filme fosse uma dança muito bem coreografada de gêneros tão distintos em uma mesma coreografia que os faz pertencer exatamente onde estão.
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Essa qualidade toda existe pela total noção de roteiro e direção que Bong tem. Ele sabe exatamente qual o melhor método de direção que precisa tomar para contar sua história com a profundidade que ela merece e precisa. É notável a atenção para cada enquadramento, cada movimento de câmera e cada corte durante todo o longa. Tudo é feito de forma precisa e muito bem elaborada, você sabe que cada coisa que está em cena foi perfeitamente pensada e planejada e que tudo o que acontece ali tem seu motivo, por mais que o roteiro em diversos momentos tente nos distrair com pistas falsas para a história ou com fragmentos que a princípio não parecem tão importantes. A prova disso é o quanto o roteiro nos faz acreditar que a história está seguindo uma linha contínua, daquelas que você consegue prever o que está por vir em seguida, ele quer que você acredite nisso ao mesmo tempo que te entrega pistas do que está por vir - sendo elas verdadeiras ou não. Essas pistas são muito bem escondidas, afinal para elas causarem o efeito esperado elas não podem ser notadas, e acredite, não importa o quanto você tente, você não irá notá-las. Isso é o que torna o roteiro completamente não previsível, que somado às surpresas que acontecem mais próximas ao clímax tornam Parasita um dos maiores filmes dos últimos anos. É impossível não reconhecer a grandeza que é o roteiro de Bong, tudo está alinhado perfeitamente, tudo está ali por um motivo - mesmo que seja tirar nossa atenção do que realmente importa. Criar uma história sem nos entregar vilões ou heróis, mas pessoas reais que podem ser boas e ruins ao mesmo tempo, tornam a trama ainda mais envolvente e cativante, ao mesmo tempo que assustadora e triste.
Tirando tudo isso, Parasita ainda aborda questões sociais modernas que podem ser aplicadas em quase todo o mundo, como as formas com que a classe social mais pobre ainda precisa recorrer para sobreviver e suas lutas diárias que não são vistas, e as diferenças entre elas e os mais ricos na maneira de ver e entender o mundo como um todo. Não é um filme que você vai esquecer.

