O Oscar 2020 havia sido criticado pela falta de representatividade nas indicações desde seu o anúncio. Duas coisas eram claras, só havia uma pessoa negra indicada ao prêmio e nenhuma mulher na categoria de Melhor Direção. Já fazem alguns anos que a premiação vem perdendo sua popularidade, seja pela falta da representatividade ou por sua duração que poderia parecer menos longa se houvesse uma atenção maior às atrações da noite e às apresentações dos prêmios. Ao que parece, a produção entendeu isso esse ano e deu uma caprichada melhor, o que não mudou o fato dessa edição ter tido a maior queda de audiência da premiação. Eu não sei de quem foi a ideia de colocar Janelle Monae para abrir o programa, mas eu amei cada segundo de sua apresentação, desde a homenagem aos filmes indicados e esnobados pela Academia e o fato dela ter feito Leo Di Caprio cantarolar no microfone, até o momento em que interrompe a música e diz ao vivo “Nós celebramos hoje as mulheres que fizeram filmes incríveis”, completando: “Estou muito orgulhosa de estar aqui como artista negra e queer contando histórias. Feliz mês da história negra”. Janelle, por sinal, não foi a única a levantar essas questões, durante sua programação, a Academia recebeu alguns comentários afiados de atores que subiram ao palco e apontaram a pouca representatividade desta edição.
Num modo geral o Oscar 2020 não teve muitas surpresas entre os vencedores, os favoritos para atores foram justamente quem levaram o prêmio para casa, Brad Pitt e Laura Dern como atores coadjuvantes e Renée Zellweger e Joaquin Phoenix com atores. Por Roteiro Original a disputa estava acirrada entre Era Uma Vez Em... Hollywood e Parasita então não houve qualquer surpresa quando o sul coreano de Bong Joon Ho bateu o veterano e meu queridinho Quentin Tarantino. Em Roteiro Adaptado a disputa estava menos acirrada e o tão adorado Jojo Rabbit de Taika Waititi foi quem levou o prêmio. Outro momento que não foi surpresa pra ninguém foi a vitória de Roger Deakins por Melhor Fotografia para 1917. Não vou entrar em mais detalhes sobre toda a premiação porque acredito que você já deva ter uma boa noção do que aconteceu naquela noite. Eu quero focar em outra coisa aqui, a mudança histórica que aconteceu naquela noite.
A melhor parte do Oscar 2020 foi a vitória poderosa do sul-coreano Parasita. Das 6 indicações, o longa levou os prêmios de Roteiro Original, Direção, Melhor Filme Internacional e Melhor Filme. O filme de Bong Joon Ho era o favorito do público e das estrelas presentes na cerimônia, isso ficou evidente assim que o filme levou o primeiro dos 4 prêmios e a plateia vibrou tanto quanto nós que estávamos em casa. A cada vitória a torcida pelo filme parecia aumentar, o diretor não acreditava no que estava acontecendo nós não acreditávamos no que estava acontecendo, a plateia do Oscar não acreditava no que estava acontecendo. Por mais que Parasita fosse o favorito, a Academia nunca foi conhecida por dar os principais prêmios da noite para filmes internacionais, é quase como se houvesse uma barreira invisível que separasse os filmes de língua inglesa do resto do mundo, e o fato do maior prêmio da noite ter ido para um filme sul-coreano é visto como uma prova da queda dessa barreira. A impressão que tivemos ao fim dessa edição é a de que as coisas mudaram, é a de que nos próximos anos, as chances de termos mais filmes internacionais concorrendo na principal categoria da maior premiação do cinema são bem grandes, assim como suas chances de vitória. Afinal, o cinema deve ser celebrado como um todo, sem barreiras. E a famosa barreira do idioma sempre foi o maior empecilho para que filmes de língua não inglesa ganhassem grande popularidade nas maiores premiações do cinema. No tapete vermelho do Oscar uma repórter perguntou a Bong Joon Ho porque ele resolveu fazer Parasita em coreano. Tudo bem, a pergunta até tem algum fundamento já que o diretor já havia feito alguns filmes em inglês, mas será que ela deveria mesmo ser feita para um diretor sul-coreano que escreveu um filme que mostra as diferenças de classes da Coréia do Sul? A barreira sempre esteve ali, não é à toa que filmes internacionais que fazem grande sucesso tendem a ganhar versões americanas. O prêmio de Melhor Filme para Parasita significou muito mais do que aparenta, foi emocionante ver elenco e equipe sul-coreanos subirem ao palco para receber o prêmio mais importante do Oscar. O que nos resta é torcer que os americanos percam de vez a preguiça de ler legendas e compreendam que o idioma não deveria ser uma barreira invisível.
