“O homem passa por três grandes eventos: nascer, viver e morrer. Mas ele não sabe que nasceu, ele sofre com a ideia de morrer e ele esquece de viver.” Jean de La Bruyere
A vida é uma grande jornada. Como a vivemos é uma escolha única e exclusiva de cada um. Por vezes, apenas existimos, mas não vivemos. Reproduzimos em nós os padrões sociais, onde o tempo acaba se tornando nosso inimigo. Somos o resultado de um adoecimento coletivo. Uma sociedade doente que nos impulsiona a essa busca desenfreada por resultados. O valor do ser humano medido pelo que ele produz e possui. O consumismo permeia todas as classes, o imediatismo impulsiona o agir coletivo, a humanidade perdeu o rumo de si mesma. E nós, enquanto parte dessa sociedade, damos a nossa vida, a nossa saúde, o nosso bem estar, para atingir tais metas. Não se importando com as consequências desse agir inconsciente.
Por trás de todo excesso, esconde uma falta. Com essa busca do “ter” acima de tudo e de todos, negligenciamos o “ser”. O lado humano fica esquecido e consequentente a família também. O tempo se torna escasso, as conversas rasas, as risadas raras, os abraços frios, a distância aumenta e a ausência já não é mais tão sentida. E para compensar essa ausência afetiva, afirmamos para nós mesmos: “Faço isso pelo bem de todos, não deixo faltar nada, eles tem tudo!” Que bem seria esse? Filhos que possuem tudo do ponto de vista material, no entanto são pobres de amor. Literalmente são órfãos afetivos. Crescem com uma lacuna emocional por conta dessa falta. No futuro, serão adultos psicologicamente fragilizados, ou quando já na adolescência, são adotados pelo traficante, ocupando ele o vazio deixado pelos pais.
A criança, na sua grande maioria, não verbaliza seus sentimentos. Não fala de forma explícita: “Pai/mãe preciso conversar contigo.” Mas ela vai expressar essa necessidade nas palavras: “Pai/mãe brinca comigo!”
Estar presente mesmo diante das nossas demandas é o nosso desafio. O que fica gravado na memória infantil não são os presentes recebidos, mas sim os momentos vivenciados - a presença daqueles que mais ama. Brincar, correr, jogar, dançar...amar.
Sempre há tempo quando priorizamos aquilo que realmente importa. O mais importante não é a quantidade de tempo que dedicamos aqueles que amamos, mas sim a qualidade desse tempo. Estar presente de corpo e de alma. Qualificando o tempo, qualificamos nossas relações. Construindo essa consciência, cresço enquanto ser humano e dessa forma começamos a nos diferenciar do coletivo. Não somente existindo mas vivendo, sendo o autor da minha história.
O segredo da vida está na simplicidade. O ontem já passou, o amanhã ainda não chegou, o hoje é o nosso grande presente. Que possamos vivê-lo e fazer do tempo nosso maior aliado, o momento é o agora. Sempre há tempo de recomeçar, fazer diferente, mudar. Sabendo quem sou, o que me move e minha responsabilidade perante a vida, com isso nossas relações se tornam muito mais profundas e saudáveis. E, dessa maneira, encontramos sentido no ter, no viver e no amar.
Psicólogo Juliano G. Cechinel
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