É comum ouvir de pessoas que elas não gostam de assistir filmes de terror porque eles causam medo, não lhes deixam dormir e os dão pesadelos. Já o suspense costuma ser um gênero que as pessoas gostam de assistir, porque o objetivo principal dele não é nos causar medo, mas nos deixar tensos, aflitos, ansiosos, e ainda assim, ele permite que a gente durma depois. Bem, ao menos a maioria deles nos permite, não leve essa afirmação como uma verdade absoluta, porque cada um controla, ou não, a aflição dentro de si e dependendo do quão assustado você é, até um suspense pode te tirar o sono. Mas ao mesmo tempo, toda vez que falamos sobre esses dois gêneros entramos em uma discussão sobre o que os diferencia, afinal, eles têm muitas similaridades. E a verdade é que é difícil diferenciar o terror, do suspense. Existe um senso comum que diz que terror é aquilo que possui algo sobrenatural, já o suspense lida com elementos reais e não fantasiosos, mas não é bem assim. Digamos que o terror é a matéria-prima do medo, algo que está sempre em transformação, e dentro dele são utilizados elementos de suspense e horror como subgêneros, ou seja, o terror dificilmente é uma coisa só, ele pode ser um combo completo ou não. Mas não vou me aprofundar mais no terror aqui porque isso é assunto para outra coluna. Por isso, vamos voltar ao suspense.
Meu foco será em Alfred Hitchcock, um dos maiores mestres do suspense, por isso, eu não poderia falar sobre o gênero sem usar suas concepções que revolucionaram o suspense. Ele tinha como suas maiores inspirações as obras de Edgar Allan Poe, outro mestre do gênero que mesmo não tendo o mesmo reconhecimento que Hitchcock, é um dos nomes mais importantes até hoje quando falamos de uma estrutura narrativa de suspense ou mistério. Os dois autores possuem muitas obras que partem do mesmo princípio. Uma forma de evidenciar a aproximação nas obras de Poe e Hitchcock é analisar como os dois construíam o suspense. Poe conseguia pegar um tema nada assustador como um gato preto e criar uma estrutura narrativa em cima desse personagem que tornava o conto sombrio e tenso, surpreendendo o leitor com uma história assustadora, e Hitchcock sabia fazer a mesma coisa com a mesma maestria em seus filmes. A tensão é fundamental para o gênero, e para criar um bom suspense o que precisa ser entendido, é que é sua estrutura narrativa a responsável por criar a tensão necessária para a obra, e não sua temática. Uma forma de dar ainda mais sentido a esse argumento é pensar em filmes de suspense, e até terror, mal realizados que possuam temas como o sobrenatural, o fantástico, etc. São temas muitas vezes vistos como assustadores por si só, mas se não possuem uma boa estrutura narrativa caem drasticamente na qualidade, é um mal bem recorrente do gênero na atualidade.
Hitchcock criou um exemplo famoso para explicar o que é um suspense: se você tem duas pessoas sentadas em uma mesa conversando sobre um tema banal onde absolutamente nada acontece e de repente há uma explosão, isso causa surpresa ao público. Agora, se vemos duas pessoas conversando sobre um tema banal sentadas à uma mesa, e em determinado momento, vemos que alguém implantou uma bomba debaixo dessa mesa, cria-se um suspense e a cena automaticamente nos deixa ansiosos e aflitos porque sabemos que essa bomba logo irá explodir e poderá matar a todos. Essa construção, de acordo com Hitchcock, troca 15 segundos de surpresa, por 15 minutos de suspense. E fazer com que essa bomba não exploda ao fim da cena é capaz de gerar ainda mais aflição ao espectador para com a trama. Existe um exemplo maravilhoso do quanto isso funciona em um de meus filmes preferidos, Bastados Inglórios de Quentin Tarantino. A cena de abertura do filme é um perfeito de exemplo de um suspense muito bem construído. Se você ainda não o viu, eu vou dar aqui alguns detalhes da cena. O longa se passa durante a 2ª guerra mundial e já de início conhecemos um personagem bem importante para a trama, o coronel Hans Landa da S.S. Ele vai até a propriedade de um fazendeiro francês com alguns soldados nazistas a procura de uma família judia que morava nos arredores e diz precisar descartar o nome do fazendeiro da lista de pessoas que possam estar abrigando inimigos do estado. Os dois conversam dentro da casa do fazendeiro sentados à mesa e a princípio tudo parece tranquilo, até que a câmera desce para debaixo do assoalho da casa nos mostrando uma família de 5 pessoas escondidas. A partir daí a cena se torna muito tensa, nós já entendemos nesse momento que o coronel é um homem esperto e perigoso, e que possui chances bem grandes de descobrir sobre a família escondida. A cena como um todo poderia ser monótona já que são dois homens conversando sentados a uma mesa, mas o clima se torna pesado após a revelação do que está escondido debaixo do assoalho, e nós ficamos aflitos para descobrir qual será o destino dessas pessoas. Bastados Inglórios não é filme de suspense, mas a construção da cena de abertura é feita completamente em cima da definição dada por Hitchcock e a torna por si só, fascinante. Para Hitchcock, é indispensável que o público saiba perfeitamente sobre todos os fatos envolvidos na trama, senão, não existe suspense, e é função do diretor nos mostrar esses fatos e deixá-los claros, caso contrário, o objetivo do filme se perde, e se tem uma coisa que um filme de suspense precisa conseguir fazer, é apresentar um suspense de forma convincente. Além disso, Hitchcock foi também um mestre quando se trata de montagem, quando não utilizava algum dos métodos acima para provocar suspense, ele abusava das estruturas de montagem para gerar a sensação de aflição e tensão ao público. Todos esses conceitos podem ter se implantado ao cinema por causa de Hitchcock, mas eles são provavelmente a melhor concepção sobre o gênero até hoje e ainda estão presentes nos melhores filmes de suspense dos últimos anos. Aqui vai uma lista de alguns que considero os melhores filmes de suspense já feitos.
Os Pássaros (The Birds-Alfred Hitchcock)

Melanie Daniels (Tippi Hedren) é uma bela e rica socialite que sempre vai atrás do que quer. Um dia ela conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em um pet shop e fica interessada nele. Após o encontro ela decide procurá-lo em sua cidade. Ela dirige por uma hora até a pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, onde Mitch costuma passar os finais de semana. Entretanto, Melaine só não sabia que iria vivenciar algo assustador: milhares de pássaros se instalaram na localidade e começam a atacar as pessoas. A construção do suspense nesse clássico de Hitchcock é perfeita e um exemplo incrível de um filme interessante e cativante onde as quase 2h do longa não parecem se demorar muito. Os métodos de montagem do diretor usados aqui, são provavelmente alguns de seus melhores em toda a sua carreira, e criam momentos de completa tensão em uma das cenas mais famosas do longa.
O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs-Jonathan Demme)

Clarice Starling (Jodie Foster) é uma agente do FBI encarregada de encontrar um perigoso assassino. Para compreender como funciona a mente de um psicopata, começa a se encontrar com o prisioneiro Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), acusado de devorar o cérebro de suas vítimas. Mas o jogo de manipulação entre os dois vai longe demais... O suspense aqui é de estremecer qualquer um, desde os planos de câmera escolhidos pelo diretor, especialmente quando os personagens olham diretamente para a câmera nos fazendo sentir como se fossemos Clarisse, até na montagem do longa que cria grandes tensões, principalmente quanto mais próximos do clímax do filme chegamos. É um daqueles filmes indispensáveis para quem gosta de um bom suspense com toques de terror.
Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Man- Ethan e Joel Coen)

Texas, década de 80. Um traficante de drogas é encontrado no deserto por um caçador pouco esperto, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que pega uma valise cheia de dinheiro mesmo sabendo que em breve alguém irá procurá-lo devido a isso. Logo Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino psicótico sem senso de humor e piedade, é enviado em seu encalço. Porém para alcançar Moss ele precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones). Esse é provavelmente o melhor filme dos irmãos Coen, o suspense aqui é tratado de forma genial e abusa muito da montagem para tal, criando tensão ao extremo sobre quando Chigurh irá atacar, através de imagens e trilha sonora. O assassino é cruel e metódico e caça a sua presa de forma que nos faz segurar a respiração na tentativa de ajudar a salvar a vida de quem ele esteja procurando.
Seven - Os Sete Pecados Capitais (Seven-David Fincher)

Um assassino em série passa a escolher as suas vítimas em função dos crimes capitais: uma é gulosa, a outra preguiçosa, a outra é invejosa... Uma dupla de investigadores é escolhida para o caso: um policial veterano (Morgan Freeman) e outro novato (Brad Pitt). Enquanto buscam o responsável pelos crimes, descobrem que as suas vidas e as de seus familiares estão em jogo. O segundo longa dirigido por David Fincher já foi suficiente para colocá-lo entre os grandes diretores do cinema. A atmosfera claustrofóbica do longa, junto com a excelente trilha sonora, fotografia e montagem, são o suficiente para criar cenas tensas e com alto nível de suspense.
Louca Obsessão (Misery-Rob Reiner)

Paul Sheldon, um escritor de best-sellers, é salvo de um acidente por uma fã que resolve levá-lo até a casa dela. Annie Wilkes é uma enfermeira fanática pela personagem Misery Chastain. Paul, com as duas pernas quebradas e preso à cama, sente o alívio de não ter morrido tornar-se horror quando Annie descobre que Misery morre no último romance da série. Ela o obriga a queimar o manuscrito e exige que ele resgate Misery dos mortos. Escrever uma nova história será sua única garantia de vida. Temos aqui um suspense diferente do Hitchcockiano mas que traz uma história envolvente e tensa, já que a loucura de Annie mostra que ela é capaz de qualquer coisa para conseguir o quer. O filme é baseado em um conto de Stephen King e é sem dúvidas uma das adaptações de maior qualidade das obras do escritor.
Janela Indiscreta (Rear Window-Alfred Hitchcock)

Em Greenwich Village, Nova York, L.B. Jeffries (James Stewart), um fotógrafo profissional, está confinado em seu apartamento por ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Como não tem muitas opções de lazer, vasculha a vida dos seus vizinhos com um binóculo, quando vê alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um assassinato foi cometido. Esse é meu filme preferido de Hitchcock e precisava entrar para essa lista. Hitchcock sabia trabalhar muito bem a tensão quando queria desviar nossa atenção do objeto em que deveríamos estar focados, e em janela indiscreta ele faz uso disso muito bem. A câmera age como um narrador nos mostrando o que ela quer em vez de seguir o suspeito de assassinato para logo solucionar o crime. Ela permanece por boa parte do filme dentro do apartamento, nos afastando do assassino. Esse método acaba se mostrando muito eficiente para criar o alto nível de suspense do longa.
Ilha do Medo (Shutter Island-Martin Scorsese)

O detetive americano Teddy Daniels e seu parceiro Chuck Aule são levados para Shutter Island, local que abriga o impenetrável Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, a fim de investigar o misterioso desaparecimento de uma assassina. Enquanto uma tempestade se aproxima, as suspeitas ficam cada vez mais assustadoras. Dentro de um hospital assombrado pelas terríveis atitudes passadas de seus pacientes e pelos planos desconhecidos de seus médicos, Teddy começa a perceber que, quanto mais se aprofunda na investigação, mais é forçado a encarar alguns de seus piores temores. Martin Scorsese é um dos maiores diretores do cinema e aqui ele criou uma obra com um suspense digno dos maiores filmes do gênero.
Eu poderia citar aqui mais 10, 15, 20 filmes de suspense de alta qualidade porque existem muitos excelentes, mas vou me reter à esses 7 que eu garanto, valem muito o seu tempo.